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CAPÍTULO III Na manhã seguinte, fui acordado pelo som do telemóvel a tocar. Ensonado, levantei-me da cama e atendi. Do outro lado da linha, estava uma grande amiga minha, a Guida.
Guida estava a telefonar-me da Austrália, onde vivia.
— Olá Marco! Tudo bem?
— Tudo bem, Guida. E contigo?
— Também. Olha, amanhã vou regressar a Portugal. — informou ela.
— Vens para Lisboa? — perguntei eu, ansiando uma resposta positiva.
— Vou! — confirmou ela. — Podes ir buscar-me ao aeroporto?
— Posso! A que horas chegas?
— Por volta da meia-noite.
— Eu lá estarei. — afirmei eu.
Combinado o encontro, ambos nos despedimos. A chamada estava a ficar muito cara. Falar da Austrália não é muito barato.
A notícia deixara-me muito feliz. Tratava-se de uma pessoa muito especial para mim.
Guida tinha mais cinco anos que eu. Conhecemo-nos quando eu entrei para a Faculdade. Nessa altura, já ela era finalista do curso.
A nossa amizade começou durante a praxe aos caloiros. Ela, acompanhada por duas amigas, andava a pintar os caloiros que chegavam ao edifício, inclusive a mim.
Era uma mulher muito atraente, de cabelos escuros compridos, olhos negros e uma voz capaz de derreter qualquer um.
Enquanto me passava o pincel carregado de tinta pela cara, dizia sorrindo para as amigas:
— Que caloiro tão bonito.
— Não tão bonito como a pintora. — respondi eu.
Guida sorriu de novo, aproximou-se do meu ouvido e disse:
— Obrigado pelo elogio, mas não te safas da praxe.
E despejou a lata de tinta sobre a minha cabeça, transformando o meu cabelo castanho, em azul. Depois, deu duas gargalhadas e afastou-se juntamente com as amigas.
Eu fiquei todo sujo de tinta e enraivecido com a atitude dela. Naquele momento, odiava-a tanto que era capaz de lhe bater.
Dias depois, quando me dirigi à cantina para almoçar, encontrei Guida que me reconheceu, imediatamente.
— Olha o rapaz dos elogios. — disse ela, olhando para mim.
Eu não dei resposta e continuei a andar. Ela veio atrás de mim e, colocando-se na minha frente, disse:
— Ainda estás chateado com a brincadeira do outro dia?
— Não! — respondi eu, contrariamente ao que sentia.
— Não parece. — contrariou ela.
Eu, desviando o olhar do dela, mantive o ar sério e zangado.
Guida colocou a mão na minha cara, rodou-a para si e, olhando nos meus olhos, pediu:
— Desculpa!
Aquela voz rouca e sensual entrou nos meus ouvidos como uma melodia. E deixou-me sem reacção.
— Eu sei que foi uma brincadeira parva. — continuou ela. — Mas, não foi com intenção de te magoar. Desculpa-me e eu prometo que te recompenso.
Eu continuei a insistir na postura séria e, num tom forte, disse:
— Não é preciso, estás desculpada.
E com aquelas palavras prossegui o meu caminho. Fui até ao balcão para ir buscar o almoço. A seguir, sentei-me num dos bancos da esplanada e tomei a minha refeição.
Enquanto comia, Guida veio sentar-se ao meu lado e perguntou:
— Queres sair comigo, logo à noite?
O convite surpreendeu-me de tal maneira que me engasguei com o almoço.
— Sair contigo? — interroguei, ainda mal refeito do choque.
— Sim! — confirmou ela. — Eu quero compensar-te.
— Já te disse que não é preciso. — afirmei eu.
Guida aproximou-se do meu rosto e presenteou-me com um ternurento beijo na face. Depois, a sua boca dirigiu-se ao meu ouvido e a sua voz sussurrou:
— Eu insisto.
Eu acabei por aceitar, pois não fui capaz de recusar. E era preciso ser muito burro para o fazer. Acertámos os pormenores do encontro e despedimo-nos.
Nessa noite saímos, fomos a um bar em Alcântara, onde conversámos toda a noite. A partir daí, tornámo-nos grandes amigos. Porém, o convívio com ela, fazia-me sentir um fraquinho por si. De dia para dia, desejava-a cada vez mais, mas não tinha coragem para o confessar.
Certa noite, quando regressávamos da Faculdade, fomos para casa dela estudar. Eu tinha exame, dias mais tarde, e ela ia ajudar-me na minha preparação.
Guida vivia, na época, num quarto alugado. Era natural de Aveiro e tinha vindo para Lisboa estudar, deixando a família que via, unicamente, nas férias. Chegados ao local, ambos nos acomodámos para iniciar o estudo.
Pouco depois, o telefone tocou e Guida foi atender. Do outro lado, uma voz que eu não percebia, pois o som era baixo. Mas, a minha atenção centrava-se no rosto de Guida que, segundo a segundo, ficava mais aterrorizado.
— NÃO! — gritou ela, deixando cair o telefone.
Eu levantei-me da cadeira e tentei saber o que se passava. Mas, Guida estava desesperada e, ao mesmo tempo que deitava coisas ao chão, implorava:
— Não, não... os meus pais não.
Ainda sem saber o que realmente se passava, corri para ela, abraçando-a para evitar que se magoasse. Só que ela estava tão desesperada com a notícia que, impensadamente, me empurrou para que me afastasse.
No entanto, eu voltei a agarrá-la, desta vez com mais força, e só a larguei quando o cansaço se apoderou dela e o desespero se concentrou nas lágrimas que lhe escorriam dos olhos.
Nessa noite não a quis deixar sozinha, pois temia que ela fizesse alguma loucura. Sendo assim, fiquei com ela. Ficámos deitados na cama, abraçados, e eu reconfortava-a o mais possível.
Guida não parava de chorar, agora num pranto mais silencioso. Mais calma, contou o que tinha acontecido, os pais tinham morrido num desastre de automóvel.
Ela estava muito frágil e procurava algum conforto no aconchego dos meus braços. Eu acariciava-lhe o cabelo e ouvia os seus desabafos. Assim ficámos durante uma hora.
Passado esse tempo, Guida levantou-se ligeiramente e, olhando para os meus olhos, disse:
— Não sei o que teria feito sem ti.
— É para isso que servem os amigos. — contrapus eu, sorrindo.
— És um amor... — afirmou ela.
À afirmação seguiu-se um suculento beijo na boca, dado por ela e que eu não esperava. A partir daí, gerou-se um clima que nos levou a deixar a amizade e a tornarmo-nos mais íntimos. Acabámos a noite a fazer amor, apaixonadamente.
Para mim era a primeira experiência sexual. Para ela, nem tanto... Não sei se Guida o fazia por amor, pela necessidade de ser amada ou pura e simplesmente para esquecer a realidade.
Na manhã seguinte, acordei com o brilho da claridade. Ao fundo do quarto, Guida debruçava-se sobre a janela, apreciando um cigarro. Não se tinha levantado muito tempo antes, pois vestia uma camisa que lhe terminava junto às coxas, a mesma que despira na noite anterior. A contorná-la, estava um céu nublado que em nada coincidia com o meu estado de felicidade.
Levantei-me, vesti as calças, caminhei até ela, coloquei os pés atrás dos seus e abracei-a.
— Bom dia! — disse eu, beijando-lhe o pescoço.
Guida não me respondeu e afastou-me. Depois, apagou o cigarro, sentou-se na cama e começou a falar:
— Temos que conversar acerca da noite passada.
— Está bem. — concordei eu, pressentindo que não ia gostar do que ia ouvir.
— Ou melhor... Vamos esquecer o que aconteceu ontem à noite. — sugeriu ela.
Aquela frase atingiu-me como uma lança directa ao coração. Se havia alguma coisa que eu jamais esqueceria, era a noite maravilhosa que tinha passado com ela. Mas, o pior nem era isso. Ela ao dizer aquilo, demonstrava que não me amava. E isso deixava-me destroçado.
No entanto, numa tentativa de demovê-la da sua ideia, interroguei:
— Eu não quero esquecer. Foi uma noite maravilhosa.
— Pois foi! — concordou ela. — Mas, eu não quero estragar a nossa amizade com um amor efémero. Eu vejo-te unicamente como um amigo.
Ela falava com ternura, mas as suas palavras feriam-me cada vez mais. É doloroso ouvirmos a mulher que amamos, dizer que somos apenas amigos.
Extremamente ferido com ela, peguei na camisola e questionei:
— Termos feito amor, não significou nada para ti?
— Foi, apenas, uma relação sexual. — afirmou ela com naturalidade.
Eu estava prestes a rebentar, sentei-me na cama e calcei os sapatos. Guida aproximou-se de mim e colocou-me a mão no ombro, dizendo:
— Queres ir tomar um café?
Furioso, dei-lhe uma chapada na mão, levantei-me e disse:
— Nunca mais te quero ver!
E com aquela frase, saí porta fora com a camisa fora das calças e o cinto desapertado. Só nesse momento, Guida percebeu o quanto me magoara.
— Marco, espera... — chamou ela, no interior do quarto.
Mas, eu estava demasiado zangado e desiludido para olhar para trás, ou continuar a falar com ela.
Enquanto descia as escadas, continuei a arranjar-me e quando saí do prédio, já levava um ar apresentável. Desci a rua e apanhei o autocarro para regressar a casa.
Durante uma semana, não a voltei a ver. Guida partira para Aveiro, para ir ao funeral dos pais. E eu continuara a estudar, como era normal.
No fim de semana seguinte, Guida regressou e tentou contactar-me. Telefonou-me várias vezes, mas eu nunca a quis atender.
Dois dias depois, cruzámo-nos na Faculdade. Guida dirigiu-se a mim.
— Marco, temos de conversar. — afirmou ela, em tom carinhoso.
— Não temos nada para dizer um ao outro. — contrapus com voz rude e, simultaneamente, amargurada.
— Por favor! Dá-me só cinco minutos. — pediu ela, com a sua voz calorosa.
O tempo que passara, fez-me amadurecer as ideias e, por isso, acedi ao seu pedido.
Guida e eu fomos até à esplanada. Sentei-me numa cadeira e ela fez o mesmo na outra, ficando a mesa entre nós.
— Marco, perdoa-me. Eu não te queria magoar. — retratou-se ela.
— Está bem! — disse eu friamente.
Ela não ficou convencida e continuou:
— Marco, eu não quero que digas que sim, para fazer jeito. Eu quero que continues a ser meu amigo.
— Mas, eu não quero ser teu amigo. — afirmei eu, mantendo a frieza.
As palavras magoaram-na. E quando olhei para ela, Guida olhava-me fixamente, deixando escapar uma lágrima dos seus lindos olhos. Lágrimas que se acentuaram, obrigando-a a tirar um lenço de papel da mala para as limpar. Depois de o fazer, inclinou-se sobre a mesa e implorou:
— Eu preciso de ti. És a única pessoa em quem confio. Não estragues isso, só porque eu não te amo como tu me amas.
Eu, consumido por dentro, por a ver tão triste, e com vontade de a perdoar, continuava sério e gélido para com ela. Não cedia nada.
À nossa volta, todas as pessoas estavam alienadas do que ali se passava.
Guida, vendo que não havia nada a fazer, voltou a encostar-se na cadeira e enxugou as lágrimas.
Quanto a mim, permanecia sério. Continuava a ingerir, calmamente, o almoço.
Ela não disse mais uma palavra e quando se recompôs, levantou-se e passou por mim sem se despedir. Mas, nesse instante, eu segurei-lhe o braço, pousei o copo na mesa e levantei-me.
Não disse nada. Virei-a para mim, abracei-a com toda a força e beijei-a na face. Ela percebeu, imediatamente, que eu a tinha perdoado. No entanto, para que não restassem duvidas, disse:
— Vamos esquecer o que aconteceu. Vamos voltar a ser amigos.
Quando a larguei e observei o seu rosto, os seus olhos derramavam, novamente, lágrimas. Só que, desta vez, eram lágrimas de satisfação.
Com ternura, limpei-lhe os olhos com o lenço e convidei-a a acompanhar-me na refeição.
A partir desse dia, a nossa amizade ficou mais forte que nunca. Obviamente, não deixei de a amar. Mas, com o tempo, aprendi a viver com esse sentimento e concluí que era mais feliz em tê-la como amiga do que como mulher. Éramos como irmãos e confessávamos coisas um ao outro que mais ninguém sabia. Entre nós não havia segredos.
Meses mais tarde, ela acabou o curso e surgiu-lhe a oportunidade de ir fazer um estágio para a Austrália. Era uma grande oportunidade e ela não a desperdiçou.
A separação foi muito dolorosa. Três dias antes dela partir, fomos acampar para o campo. Quisemos partilhar os seus últimos dias em Portugal, juntos, sem que ninguém nos incomodasse.
Quando ela partiu, eu senti um enorme vazio. Perdia uma pessoa com a qual tinha um relacionamento que ainda hoje não sei definir.
Durante os quatro anos que esteve na Austrália, Guida amenizava a separação, telefonando-me todos os meses. Não falávamos muito tempo, mas, os poucos minutos aliviavam as saudades.
Agora, ela estava de regresso a Portugal e eu felicíssimo por a voltar a ver.
Foi impulsionado por essa alegria que saí da cama, naquele dia em que recebi o seu telefonema, e fui para a casa de banho para tomar um duche.
Dei por mim a cantar na banheira, com a água do chuveiro a cair sobre o meu corpo. Estava delirante.
Como já era tarde, ao banho seguiu-se o almoço. Os meus pais estranhavam os meus actos, mas ficavam felizes por me ver tão alegre.
Depois do almoço, saí de casa e fui à procura de um presente para oferecer a Guida, quando ela chegasse. Durante a tarde, andei a passear pela Avenida de Roma a ver as lojas. Passei por perfumarias, ourivesarias, sapatarias, etc...
Estava tão concentrado naquilo que me esqueci do que combinara com Rafaela. Ao fim da tarde, cheguei a casa com um perfume que comprara para oferecer a Guida.
Entrei e corri para o quarto, carregando um embrulho dourado. Sentei-me na escrivaninha e procurei um cartão para juntar ao embrulho. Vasculhei as gavetas para o encontrar, contudo, o que encontrei foi o número de telefone de Rafaela, o que me fez lembrar do encontro que marcara. Porém, era tarde demais.
O facto deixou-me aborrecido. Não era que achasse o encontro importante, até porque, para mim, o importante era a chegada de Guida. No entanto, tive pena de Rafaela, pois não gostaria que me fizessem o mesmo.
A ornamentação do embrulho passou para segundo plano. Agora, procurava uma maneira de remediar a situação. Só havia uma hipótese, fazer aquilo que tanto me custava, telefonar-lhe.
Peguei no telemóvel, marquei o número e esperei que atendessem.
— Estou? — questionou uma voz do outro lado.
— Boa noite! A Rafaela está? — indaguei eu.
Do outro lado, a voz que parecia ser de uma pessoa de idade, disse:
— A Rafaela ainda não chegou.
— Não me sabe dizer quando ela chega, não? — questionei eu.
— Não! Mas, se quiser tentar mais tarde, talvez a apanhe. — sugeriu a outra voz.
— Então, eu volto a telefonar mais tarde. — disse eu. — Obrigado!
E desliguei o telefone. Para fazer tempo, fui preparando o cartão do embrulho. Meia hora mais tarde, voltei a ligar para Rafaela. Novamente, atendeu a senhora de idade.
— Boa noite. A Rafaela está? — voltei eu a indagar.
— Quem fala? — perguntou a senhora.
— É o Marco. — informei eu.
— Eu vou chamá-la. — disse a idosa.
Fiquei pendurado, à espera, mais de um minuto. Deviam pensar que as chamadas de telemóvel eram grátis.
— Estou? — era a voz de Rafaela.
— Olá Rafaela, tudo bem? — disse eu, para início de conversa.
— Quem fala? — perguntou ela.
A pergunta aborreceu-me. Ainda antes me tinham feito a mesma pergunta. A minha vontade era dizer: Ó minha estúpida sou eu, o Marco. Não me conheces a voz? E a parva que me atendeu, perguntou-me o nome para quê?
Mas, aquilo que eu disse, foi:
— Sou eu, o Marco.
— Ah, és tu! — disse ela, num tom zangado. — Deixaste-me à espera, duas horas!
— Desculpa. — pedi eu. — Tive que ir a Belém e fiquei retido no trânsito. Foi impossível chegar a horas.
Às vezes, é necessário contar umas mentiras, senão, estamos tramados.
Rafaela aceitou a justificação e combinou a hora para o dia seguinte. Mas, eu sentia-me na obrigação de recompensá-la. Por isso, convidei-a para ir ao cinema, naquela noite.
— Não, hoje não posso. — respondeu ela.
Recusado o convite, já nada mais havia a dizer. Sendo assim, despedimo-nos e eu desliguei. Cheguei a pensar que fora absurdo, tê-la convidado para ir ao cinema. Afinal, nós nem éramos amigos.
Depois do jantar, fui para a sala ver televisão. E perto da meia-noite, deitei-me. Porém, antes de o fazer, escrevi numa folha A4, o que combinara com Rafaela, para evitar o que acontecera naquela tarde.
Enquanto não adormecia, pensava na Guida e em como seria o nosso reencontro. Estava muito ansioso. Imaginava-a a chegar e a dizer-me que me amava e que voltara para ficar comigo.
Enfim, sonhos...
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